Coluna - Crônicas da Mara
Ela se depara com a tela branca e tenta disfarçar, procurando entre as teclas alguma inspiração. Nada. O texto não vem. Teimosamente contorce os dedos, olha para os lados, pensa em assoviar, como se vê naqueles filmes antigos, de comédia, em que o personagem sai de fininho, com a boca em bico. Mas ali não dá. Outras pessoas podem sentir-se incomodadas.
É sempre assim. No retorno das férias parece que a cabeça se recusa a pensar. Até os neurônios entrarem novamente nos eixos custa um pouco. Daí vem à lembrança o saudoso Ivo Lovato (que Deus o tenha), que nestas horas deve estar conversando com céu com outro grande colega, o Peter Júnior, rindo das mazelas que nós, pobres mortais que ainda habitamos o mundo terreno, sofremos. Sempre que o Ivo retornava do período de férias ou então de um de seus raros descansos nos feriados, ele se lamentava, dizendo que o pensamento tinha emperrado. Reclamava à exaustão, dizendo que seu tempo de repórter já tinha acabado e que precisava desfrutar da aposentadoria.
Porém, mesmo levando mais tempo do que o normal, ele cumpria todas as tarefas. Na semana seguinte já estava no ponto outra vez, lépido e faceiro, escrevendo as notícias policiais. E ele foi um dos raros que se aposentou na profissão. Afinal, a árdua tarefa de reportar as violência, o crime, as lides policiais não é pra qualquer um. O desgaste é sempre muito grande, física e emocionalmente. Talvez por isso, todo o time da época em que o Ivo estava na ativa, era bem humorado. Rir era a forma que a turma encontrava para minimizar o contato direto e diário com a tristeza dos outros.
E o grupo era ponta de lança - Algaci Túlio, Roberto Massignam, Hernani Vieira , Ali Chaim, e alguns outros abnegados, que faziam das tripas coração para a notícia chegar em primeira mãos aos seus leitores. Naquela época ainda se lutava por um furo de reportagem, os textos tinham que ser no mínimo bons, e não existia internet nem celular. Era tudo muito mai s difícil, porém menos pasteurizado. Bem, nostalgia não enche barriga e o melhor a fazer é continuar dedilhando o teclado, até que surja uma inspiração...
